Em 2015, li e reli muitas vezes o livro “Não há Heróis” (No Hero), de Mark Owen, pseudônimo de Matt Bissonnette. Owen ficou mundialmente conhecido por “Não há Dia Fácil”, no qual relatou a operação que levou à morte de Osama bin Laden. No entanto, não foi o relato da missão histórica que se transformou em uma ferramenta essencial para a minha vida e carreira. Foi uma cena de treinamento de escalada, e eu nem gosto de escalada..

Owen descreve um momento em que, ao subir uma parede íngreme, comete o erro clássico: olha para o topo. Ao ver a altura, o risco e a distância que ainda faltava percorrer, ele trava. O corpo gela, a mente acelera e a paralisia se instala.
Um instrutor experiente percebe a hesitação e grita um comando que é pura sabedoria operacional:
“Pare de olhar para o topo. Foque no que está a cerca de 90 centímetros de você. Resolva o próximo apoio. A próxima pegada. O próximo movimento. Nada além disso.”
Por que isso se tornou um princípio de gestão
Naquele período, eu já estava profundamente envolvido com gestão, liderança e a tomada de decisões sob pressão. A lição de Owen não me pareceu apenas uma frase motivacional de efeito. Ela era, acima de tudo, operacional.
Ao longo dos anos, apliquei esse princípio em diversas dinâmicas de liderança: em treinamentos, em reuniões estratégicas e, principalmente, em momentos críticos de gestão de crises. A lógica é simples: em situações de alta complexidade, o excesso de visão estratégica pode se transformar em ruído mental.
A armadilha do olhar sistêmico
Líderes são treinados para olhar o todo. Analisamos o orçamento anual, o cenário macroeconômico, o risco sistêmico e o impacto das decisões nas próximas décadas. Essa visão de longo alcance, a nossa versão da “visão além do alcance”, é indispensável para o planejamento, mas pode ser fatal para a execução sob estresse.
Quando tentamos resolver o “prédio inteiro” de uma só vez, perdemos a eficiência no passo imediato. A ansiedade gerada pela magnitude do objetivo final consome a energia cognitiva que deveria estar focada na solução do problema que está bem à nossa frente. Sob pressão, o excesso de visão vira paralisia.
A neurociência da execução
Existe uma base científica sólida para a eficácia dos 90 centímetros. Quando reduzimos o escopo do problema para algo gerenciável e imediato, diminuímos a carga sobre a amígdala, a região do cérebro responsável pela resposta de luta ou fuga.
Ao resolver o próximo apoio, geramos uma microvitória. Essas pequenas conquistas liberam dopamina, que reforça a confiança e mantém o sistema motor ativo. Em vez de sermos esmagados pelo peso do futuro, somos impulsionados pela clareza do presente.
Aplicação prática: reduzindo o ruído
Para aplicar essa disciplina no dia a dia da liderança, é preciso separar o planejamento da ação:
- Organize a mesa: Se o projeto é colossal, identifique qual é a primeira tarefa simples que destrava as demais.
- Conduza a próxima reunião: Esqueça o desfecho do trimestre por uma hora. Foque em deixar a equipe que está na sala agora com clareza absoluta sobre o próximo passo.
- Execute com disciplina: Resolva o que está ao seu alcance imediato sem permitir que as variáveis incontroláveis do futuro paralisem o seu braço.
Conclusão
A estratégia é o que define onde fica o topo da montanha. É o mapa, o norte, a razão de estarmos subindo. Mas a execução é o que acontece nos 90 centímetros ao nosso redor.
A montanha não é vencida em um salto heroico. Ela é vencida movimento por movimento, pegada por pegada. Se a pressão aumentar e o caminho parecer longo demais, lembre-se do conselho do escalador: pare de olhar para o topo e resolva o seu próximo apoio.
Átila Cordova é empreendedor e especialista em gestão de crises, com mais de 20 anos de dedicação ao estudo das narrativas e das dinâmicas de segurança. Atua no planejamento e na gestão da segurança para famílias, empresas, escolas, condomínios e espaços coletivos, integrando conceitos de psicologia ambiental, comportamento humano e segurança para criar ambientes mais seguros e resilientes. Por meio de sua experiência na linha de frente e na liderança de equipes multigeracionais, traduz lições de alto desempenho para o cotidiano da gestão e das decisões sob pressão.




