O período escolar recomeça e, com ele, a mesma cena se repete nas cidades: trânsito travado, buzinas e um estresse que surge logo cedo. É comum apontar o dedo para a escola, questionando a falta de estrutura, as regras mal definidas ou a ausência de pessoal. Tudo isso importa, sem dúvida. No entanto, há um fator que costuma ser ignorado e que altera a dinâmica de forma profunda: o comportamento dos pais no embarque e desembarque.

Ao longo dos anos, trabalhando na gestão e no planejamento de segurança para escolas, condomínios e espaços coletivos, aprendi uma lição simples. Um ponto bem sensível de uma escola não é apenas a sala de aula, mas também o portão de entrada e de saída. É ali que o mundo real invade a rotina escolar.
Pressa, estresse, atrasos, expectativas e frustrações se encontram no mesmo espaço físico, geralmente em poucos metros de calçada. Para muitas direções, o maior medo não é uma crise pedagógica; é o estacionamento. É o embarque e desembarque, pois é ali que surgem os conflitos, as reclamações, as filmagens de celular, as discussões e, por vezes, situações de risco com crianças no meio do trânsito.
O problema começa quando o meu tempo passa a valer mais que o tempo do outro. O carro para em fila dupla por apenas um minuto, enquanto a criança ainda organiza a mochila. O responsável desce para conversar com o funcionário, e o portão vira um ponto de encontro. Cada atitude isolada parece pequena, mas, somadas, elas travam quarteirões inteiros.
Em diferentes projetos de segurança escolar, vi instituições com ótima estrutura sofrerem diariamente no portão. Por outro lado, vi escolas com estrutura simples operarem com fluidez. A diferença quase nunca estava na obra física, mas sim no comportamento dos adultos. Nenhuma regra resiste à falta de empatia e nenhum portão resolve a lentidão humana.
Quando o fluxo não funciona, surgem atritos. Primeiro entre pais, depois entre pais e escola. Em seguida, surgem os grupos paralelos de mensagens, onde se formam narrativas próprias e uma espécie de sindicato informal de insatisfeitos. Cada um passa a agir por conta própria, criando soluções individuais para um problema coletivo. O resultado é previsível: o caos aumenta.
Do ponto de vista da segurança, o embarque e o desembarque são momentos críticos. É o cenário perfeito para incidentes, pois:
- Há maior concentração de pessoas.
- O trânsito fica mais desorganizado.
- Crianças circulam entre carros.
- Adultos tomam decisões sob pressão de tempo.
No fim, a questão não é apenas de trânsito ou de logística. É uma questão de cultura e de responsabilidade coletiva. O embarque e desembarque não devem ser momentos sociais; são operações rápidas de parar, abrir, sair e seguir.
Talvez o ajuste mais eficaz para o caos do trânsito escolar não seja um novo portão, mais cones ou mais funcionários. Talvez seja uma pergunta simples que cada pai e mãe poderiam fazer antes de parar o carro: eu estou ajudando o fluxo ou estou sendo parte do problema?
Afinal, a educação não acontece apenas na escola. Ela também se ensina e se revela no trânsito do lado de fora.
Átila Cordova é empresário e líder comunitário. CEO e cofundador do Grupo MAGAV, atua em estratégias, liderança, mentorias e projetos de segurança. Atualmente é presidente da Comunidade Judaica do Paraná (Kehilá). Seus textos exploram temas como liderança, juventude, comportamento humano, comunidade e tomada de decisão.




